Carta ao leitor --->
Esta história resume drasticamente minha história. Não morri, estou viva, mas quero dizer... No sentido conotativo, claro. Busquei na escrita algo que não poderia se quer sonhar na realidade. A expressão dos meus sentimentos. Não fui capaz de mudar por muitos anos e ainda creio que seja difícil a esta criatura mudar algo que permaneceu imutável durante tanto tempo. Mas quem disse que a esperança morreu? Ela continua viva dentro de mim e eu sei disso. Uma bela tulipa azul ainda vive aqui.
Mundo escuro - Primeira história
Naquela noite a menina curvou a rua deserta, procurando algum sinal de vida. Encontrou uma cidade fantasma, talvez empoeirada pelo tempo, mas que guardava diversas sepulturas em um nível de terra mais abaixo.
Talvez naquela cidade houvera vida algum dia e não fosse tão sombria quanto agora. Pode ser que tenha ficado assim por causa do tempo.
E se o tempo for mesmo o responsável por isso, provável que estivesse tentando se redimir agora.
Na relva pisoteada pela menina, viu uma pequena tulipa azul. Aquilo era mais do que o suficiente para constatar que a cidade fantasma não era bem fantasma.
Um dia aquele lugar brilhou, foi alegre e quente como o sol. Havia muita gente ali, famílias inteiras viveram e morreram na atual cidade fantasma. A tulipa era a prova disso. Ela era a esperança, que nunca morre, mesmo que desistam de acreditar nela.
O som de passos no solo arenoso trazia memórias àquela criança. Lembrava o gosto da infância, quando ainda pequena construía castelinhos de areia na praia rente as ondas, que os derrubavam levando tudo para longe. Quão longe estava sua infância no atual tempo e espaço? Será que algum dia se lembraria daquele tão horrível episódio, em que sua vida fora levada como a areia da praia?
Ainda criança morreu, não imagina como e exatamente quando. Não parou de crescer, vivia secretamente em um universo escuro, que pertencia somente a ela, não sabia o porquê. Se lembrava de pequenas coisas da infância, mas nada relevante a ponto de descobrir sua origem.
Sabia que estava sozinha ali, mas adorava crer que alguém viria buscá-la daquele lugar isolado.
Corria para esquecer seus pensamentos, distrair sua mente de forma que a mesma a levasse espontaneamente até onde ela queria. No penhasco que sempre ia à noite. Olhava as distantes montanhas, parte delas submersas pelo mar. O céu refletia-se na água levando sua mente a divagar, a conhecer a poesia; a arte mais pura que existe. Sorria, mesmo que não houvesse motivo . E de vez enquando chorava quando percebia seu estado alienado e depressivo.
Todos os seres humanos precisam interagir uns com os outros, mas alguns deles não são naturalmente chegados a isso. Se isolam dos outros, procurando silêncio, um momento de paz para ler ou estudar, conversar consigo mesmo e pensar. Estes seres não deixam de ser humanos por isso. Apenas tornam-se exceção em um universo onde a grande maioria faz o contrário disso o tempo inteiro.
Não é ruim ter amigos. É ótimo. Mas nem todo ser humano se permite ter amigos. Diferente de uma pessoa introvertida, o tímido é aquele que acovardado, se esconde da sociedade no leito macio de sua consciência e explora profundamente sua obsessão pela aprovação das pessoas ao seu redor. Tímidos têm extrema dificuldade de comunicação, tanta que as vezes desistem de se comunicar. Eles se isolam, por vezes, a fim de evitar relações sociais pois se sentem distantes quando estão em grupo. Estes seres também são humanos, mas humanos diferentes, que enfrentam dificuldades diariamente tentando vencer sua fera. Tentando vencer a si próprio.
A timidez não deveria ser vista como algo característico de um ser humano egocêntrico e ignorante. As vezes nós esquecemos do frio que sentimos na barriga quando apresentamos determinada coisa ao público. A timidez é natural, mas precisa ser vencida. Caso contrário torna-se-a doença, que penetra na mente e não diluí, mata aos poucos o indivíduo, levando esse a depressão.
Aliás a queixa emocional de verdade fica para o próximo post. Aguarde....
— Adultos sofrem o dobro que um adolescente e não ficam doentes de tristeza. Vai que essa geração está mais molenga. Na minha época, eu era um jovem desnutrido, que chamavam de agourento porque sempre que me viam, algo de ruim acontecia. Na primeira vez foram as galinhas comidas por um bicho. Depois uma velha morreu. Tudo era culpa minha. Que mal fiz a este mundo? Apenas existo, se existo mesmo. — ele coça a cabeça calva. — Ahhh, queria ser jovem de novo. — suspira.
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