sábado, 22 de julho de 2023

Quarto cinza

 Achei esse texto no pc do nada e me pareceu que estava incompleto.

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É um quarto cinza

Uma nuvem branca flutua no ar

Raios solares entram pelas brechas das janelas

E no meio

Uma garota está sentada

Abraçando o seu corpo com as duas mãos

 

É um dia frio

E o quarto é abafado

A roupa dela é fina demais

Como a roupa de um fantasma

Branca e de seda

 

A nuvem paira sob a cabeça da menina

As gotas não caem

É um ambiente seco

Seus olhos estão abaixados

É um olhar melancólico

O olhar de uma criança

 

Não tem lágrimas

Só sente frio

Quer chorar e não pode

O quarto cinza é muito cruel

 

Todos foram embora

Ela ficou sozinha

Mas não tem lágrimas

Neste quarto cinza

 

É uma tarde pacata

As mães assam bolos de chocolate

E sorriem perto da lareira aquecida

 

É um dia triste

Ninguém veio visita-la

A única coisa que lhe resta

É ficar

 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Uma vez, tive um sonho.

 Uma vez, tive um sonho.

Em que eu acordava e via um lugar de luz.

Iluminando-me de falsas esperanças.


Sonhei que...

Naquele dia luminoso

Experimentei ter o conhecimento de toda a verdade do mundo.

Quis saber, por meio de uma fada, até que ponto eu me separava de Deus naquele momento e ela me disse:

"Você nunca poderia ser Deus."

Então eu me abaixei, lentamente, em câmera lenta e abracei meu corpo no intuito de me proteger daquela verdade absoluta.

A Harpia dos Ventos do Sul


Esse conto faz parte do universo de uma história que eu queria escrever.

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Era mais um dia no complexo industrial. Aquele lugar fervia com suas fábricas despejando fumaça no céu, até o ponto de se formar neblina acima das construções.

As colinas e montanhas escuras, hoje, estavam quase totalmente escondidas pela fumaça. O céu em vermelho estava como sempre — o mesmo tom de todos os dias. Já o sol negro pairava no céu, desta vez bem no centro, marcando 12:00 em ponto.

As ruas estavam lotadas nesse horário, várias criaturas com rabos, chifres, orelhas de animais e até animais de grande porte andavam pelos becos. Era um ritmo constante, indo e vindo, entrando e saindo das construções.

Num ponto alto de um arranha céu, uma harpia de penas azuis olhava a cidade. Seus olhos de raposa no tom de azul ciano observavam demoradamente o movimento das criaturas. Sua postura era ereta, as pernas cruzadas e as mãos soltas ao longo do corpo. A criatura andou devagar com umas das patas até a borda. Seu corpo estava tão próximo da beirada que bastava um passo até que caísse. Ela suspirou e sorriu de canto, fechou os olhos e virou-se de costas. Um único impulso foi o bastante para que seu corpo caísse como uma pedra.

O vento batia em suas asas tão forte que arrancava algumas de suas penas. O rosto dela se contorcia num sorriso torto. Lágrimas escorregavam dos olhos e as mãos protegiam o rosto.

Quanto mais próximo ficava do solo, seu comportamento compulsivo ficava pior.

Arranhava o rosto, seu corpo, na tentativa de que aquela dor a mantivesse lúcida sobre sua condição de viva. Aquela dor só era sentida enquanto ainda não havia chegado ao solo. Aquela dor era tudo que tinha, no seu fim.

Perto do fim, a harpia olhou o céu. O céu vermelho lhe trouxe a sensação de que teria paz, pois não o veria nunca mais, nem em seus mais horríveis pesadelos. Olhou uma última vez o sol, pairando no centro, como um grande olho. Viu, uma última vez, aquelas montanhas negras que se erguiam e a prediam, como numa gaiola.

Montanhas que não deveria ver nunca mais.

Quando chegou ao solo, seu sangue escarlate refletiu o céu na mesma cor.

A queda foi agonizante, não morreu na mesma hora, ainda viu os demônios se juntando ao seu redor.

Fechou os olhos, pois, a dor que sentia era a pior da sua vida, mas não tinha medo. Deveria continuar ali, morrendo aos poucos até não ser mais capaz de sentir dor alguma.


sábado, 8 de julho de 2023

Recomendações de leitura para Julho de 2056

Olá, meus leitores. Quero recomendar duas leituras. Como sempre leio antes de recomendar, obviamente, essas leituras são as que fiz mais recentemente. A primeira é da amável Clarice Lispector.  Eu confesso que quando li o começo de algumas obras dela achei que as pessoas a bajulavam demais, porém nessa leitura recente vi que ela escreve de um jeito que toca a alma. É impressionante, mas também preciso conhecer mais da autora. A obra que li dela recentemente é um conto que faz parte da coletânea de contos "Legião Estrangeira" chamado " os desastres de Sofia". Esse conto é uma viagem e uma overdose de imagens que formam quase um filme na nossa mente. As descrições são tão bem feitas e poéticas ao mesmo tempo. Jamais tinha presenciado esse tipo de escrita e eu fiquei pasma com o quanto eu pude mergulhar nessa história e me imaginar como a protagonista em cada pequeno detalhe das cenas. Dito isto, se você quer viajar um pouco e sair da realidade é uma boa ideia.

O segundo se trata do clássico poema do Poe "O Corvo". Na primeira vez que li também subestimei esse escritor. Achei meio chato e sem sentido, mas lendo em voz alta, entendendo o que quer dizer e analisando o som desse poema, é impressionante como eu não me apaixonei a primeira vista por ele. É um poema triste e talvez seja da estética gótica do Romantismo, mas mesmo assim vale muito a pena ler (não é só depressão e caras sendo idealistas). Ler e sentir cada verso desse poema é como atuar numa peça sozinho, mas não, não é triste. É divino.

Avisando o aviso sem qualquer relevância

 Bemmm, meus leitores, tenho uma notícia que é muito improvável de se concretizar ( mas vai que né...): talvez eu faça um canal no YouTube para recitar poemas. Sim, eu sei, é mt gay, mas eu gosto de passar vergonha aparentemente. Estava lendo " O corvo" do Poe hoje e achei muito interessante fazer uma leitura dramática, dando ênfase às emoções do eu lírico. Já vi alguns senhores recitando poemas e acho extremamente bonito a forma como fica. Parece uma música, mas uma música que eu posso cantar e não me preocupar com a afinação. Enfim, se eu fizer dou um jeito de divulgar essa futura atrocidade.

Até maisss.