segunda-feira, 17 de julho de 2023

A Harpia dos Ventos do Sul


Esse conto faz parte do universo de uma história que eu queria escrever.

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Era mais um dia no complexo industrial. Aquele lugar fervia com suas fábricas despejando fumaça no céu, até o ponto de se formar neblina acima das construções.

As colinas e montanhas escuras, hoje, estavam quase totalmente escondidas pela fumaça. O céu em vermelho estava como sempre — o mesmo tom de todos os dias. Já o sol negro pairava no céu, desta vez bem no centro, marcando 12:00 em ponto.

As ruas estavam lotadas nesse horário, várias criaturas com rabos, chifres, orelhas de animais e até animais de grande porte andavam pelos becos. Era um ritmo constante, indo e vindo, entrando e saindo das construções.

Num ponto alto de um arranha céu, uma harpia de penas azuis olhava a cidade. Seus olhos de raposa no tom de azul ciano observavam demoradamente o movimento das criaturas. Sua postura era ereta, as pernas cruzadas e as mãos soltas ao longo do corpo. A criatura andou devagar com umas das patas até a borda. Seu corpo estava tão próximo da beirada que bastava um passo até que caísse. Ela suspirou e sorriu de canto, fechou os olhos e virou-se de costas. Um único impulso foi o bastante para que seu corpo caísse como uma pedra.

O vento batia em suas asas tão forte que arrancava algumas de suas penas. O rosto dela se contorcia num sorriso torto. Lágrimas escorregavam dos olhos e as mãos protegiam o rosto.

Quanto mais próximo ficava do solo, seu comportamento compulsivo ficava pior.

Arranhava o rosto, seu corpo, na tentativa de que aquela dor a mantivesse lúcida sobre sua condição de viva. Aquela dor só era sentida enquanto ainda não havia chegado ao solo. Aquela dor era tudo que tinha, no seu fim.

Perto do fim, a harpia olhou o céu. O céu vermelho lhe trouxe a sensação de que teria paz, pois não o veria nunca mais, nem em seus mais horríveis pesadelos. Olhou uma última vez o sol, pairando no centro, como um grande olho. Viu, uma última vez, aquelas montanhas negras que se erguiam e a prediam, como numa gaiola.

Montanhas que não deveria ver nunca mais.

Quando chegou ao solo, seu sangue escarlate refletiu o céu na mesma cor.

A queda foi agonizante, não morreu na mesma hora, ainda viu os demônios se juntando ao seu redor.

Fechou os olhos, pois, a dor que sentia era a pior da sua vida, mas não tinha medo. Deveria continuar ali, morrendo aos poucos até não ser mais capaz de sentir dor alguma.


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