sábado, 6 de julho de 2024

Arthur Rimbaud, Cartas do Vidente.



     Eu quero ser poeta e trabalho para me tornar Visionário: isso o senhor não compreenderá de jeito nenhum, e eu dificilmente saberia lhe explicar. Trata-se de chegar ao desconhecido pelo desregramento completo de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é preciso ser forte, ter nascido poeta, e eu me reconheci poeta. Não é de forma alguma minha culpa. É incorreto dizer: Eu penso: deveríamos dizer pensam-me. — Desculpe pelo jogo de palavras. Eu é um outro. Uma pena para a madeira que se descobre violino, e às Favas os inconscientes, que tagarelam sobre o que ignoram completamente.

    Pois Eu é um outro. Se o bronze acorda clarim, ele não tem culpa alguma. Isto é evidente: eu assisto à eclosão do meu pensamento: eu a olho, eu a escuto: lanço o arco sobre as cordas: a sinfonia produz uma agitação nas profundezas ou vem de assalto sobre a cena. Se os velhos imbecis não tivessem encontrado o significado falso do Eu, não teríamos que varrer esses milhões de esqueletos que desde um tempo infinito acumularam produtos da sua inteligência tacanha, clamando-se autores!

    O primeiro estudo para o homem que quer ser poeta é seu próprio conhecimento, sem reservas; ele procura sua alma, ele a inspeciona, ele a tenta, ensina-lhe. A partir do momento que ele a conhece, deve cultivá-la; isso parece simples: em todo cérebro realiza-se um desenvolvimento natural: tantos egoístas se proclamam autores; há ainda outros que atribuem a si mesmos seu próprio progresso intelectual!

    O Poeta faz-se visionário por um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, acaba-se em todos os venenos para guardar somente a quintessência. Inefável tortura na qual necessita de toda fé, de toda força sobre-humana, onde se torna, entre todos, o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito — e o supremo Sábio! — Pois ele chega ao desconhecido! Visto que cultivou sua alma, já rica, mais do que a de qualquer outro! Ele chega ao desconhecido e quando, enlouquecido, acabaria por perder a inteligência de suas visões, ele as vê!

O poeta é verdadeiramente um ladrão de fogo. Ele é carregado de humanidade, dos animais mesmo; ele deverá sentir, apalpar, escutar suas invenções; se o que ele conta do além possui forma, ele dá forma, se é informe, ele dá o informe. 

    Encontrar uma língua; Essa língua será da alma para a alma, resumindo tudo, perfumes, sons, cores, ao pensamento se agarrando e desfazendo o pensamento. O poeta definiria a quantidade de desconhecido que em seu tempo desperta na alma universal.

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