sábado, 12 de fevereiro de 2022

A Caixa de Espelhos ( História original)

 O espelho – Capítulo I


– Está tudo bem... tudo bem...

Disse para si mesmo olhando seu reflexo distorcido nos espelhos.

– E-está... t-tudo... 

Chorando, ele repetia as palavras, gaguejando em uma ou outra. Suas mãos e pernas tremiam, envolvidas ao redor do corpo como um consolo para si mesmo. 

Respirava ofegante, segurando as lágrimas, desviava o olhar do espelho, pois tinha medo que se transformasse em outra coisa. Sua imagem no espelho era terrível: um garoto magro, quase esquelético e sem roupas, o cabelo raspado, a pele pálida, ao redor de outros espelhos numa caixa.

– Blue bird...

Ele começou a cantar, sussurrando com sua trêmula, uma música que ouvia as vezes na sala de espelhos. Era a única coisa que o distraía, o acalmava, e fazia parecer que mesmo numa situação tão horrível ainda valia a pena se manter acordado.

– Where you gonna go now?

Ele comia algumas partes da música que já não lembrava e cantava num tom baixo. Suas pernas paravam de tremer e logo ele tinha coragem para se olhar de novo no espelho.

Dessa vez, o reflexo parecia normal, era só um garoto pálido e magro, com dois olhos azuis ciano arregalados e vermelhos.

– *Suspiro* Ainda bem...  Que bom...

Ele ficou mais relaxado e tentou se deitar em forma de concha na caixa de espelhos. Ficou imóvel durante alguns minutos até escutar uma porta se abrir.

Sons de água e passos podiam ser escutados da caixa, além de uma música colocada num rádio, suave e melancólica. Ela chegou.

Ela veio para casa.

 O garoto ficou alegre e lágrimas escorreram de seus olhos. Ele fez o máximo de silêncio possível para abafar o choro crescente. A muito esperava pela sua mãe. Sabia que ela viria resgatá-lo, mas ele não podia sair.

Ela chamou pelo nome dele e suspirou quando não houve resposta. Dava para ouvir os passos que iam apressados pelo quarto, abrindo gavetas e portas, passos desesperados e inquietos.

– FINCH?

Ela gritava cada vez mais desesperada e aos poucos sua voz ficava mais fraca, longe, indo para outro lugar. 

– Ela veio... 

Finch disse ao espelho sussurrando e deu um sorriso sincero. Sua mente estava leve como uma pluma. Parece que tudo valeu a pena só por este momento. Saber que sua mãe estava bem e principalmente que ela procurou por ele, dava sentido ao que estava fazendo. 

Finch se deitou novamente na caixa e respirou aliviado. 


Rory Finch – Capítulo II


Finch acordou, supondo que deveria ser de manhã devido aos raios solares que entravam pelas frestas da caixa. Ele se sentou com cuidado para não bater a cabeça e revelar sua localização. Estava com muita fome. Dormir ajudava a esquecer a dor em sua barriga, mas sempre quando acordava ela voltava pior. Já faz 1 semana dentro da caixa de acordo com os riscos que ele fez a cada dia. A comida durou pouco e a água também. Ele bebia a própria urina para matar de sede, mas não sairia da caixa, não importa o quê.

Hoje, seu reflexo estava sorrindo e tinha os olhos completamente brancos. Finch fechou os olhos e ficou 30 minutos esperando para olhar novamente o espelho. Ele estava um pouco tonto, então resolveu se deitar para não cair.

O quarto provavelmente estava vazio hoje. Sua mãe já deve ter partido. Finch ficou brincando de criar histórias com os polegares. Elas sempre terminam de uma forma trágica.

Quando Finch ainda estava fora da caixa, costumava escrever muitas histórias e guardá-las num fichário. Desde pequeno, Finch era uma criança criativa, vivia no mundo da lua, desenhando monstros e escrevendo histórias macabras. Por outro lado, Finch era solitário, incompreendido. Ele era uma criança muito tímida, então não teve muitos amigos. Principalmente no seu ginasial, quando souberam que Finch sofria com esquizofrenia, poucas pessoas cogitavam em se aproximar.

Finch se sentia disperso, fora da realidade, como se sempre fosse um observador do mundo: “Ele era apenas o reflexo do espelho, sem um corpo físico.” 

Dentro da caixa de espelhos, era como se Finch estivesse morto. Ali era um outro universo, um outro plano, onde Rory Finch não existia.


https://youtu.be/B33J6ziCjGY



Nenhum comentário:

Postar um comentário